02/10/2019 às 08h55min - Atualizada em 02/10/2019 às 08h55min

Ex-morador em Fátima do Sul, Gilson se preparou para viver só até os 50 anos, mas teve de mudar de ideia

endedor passou mais de 15 anos na fila de espera por um transplante de rim e não aguentava mais o sofrimento

Thailla Torres
Gilson voltou a sorrir depois que o transplante deu certo. (Foto: Marina Pacheco)

Gilson viveu 15 anos com a triste sensação de que morreria a qualquer momento. Diagnosticado com insuficiência renal, passou todo esse tempo enfrentando hemodiálise para sobreviver enquanto esperava pelo transplante de rim. O tempo de espera o fez pensar em morrer aos 50 anos. O olhar para a vida só mudou quando alguém decidiu pela doação de órgãos.

“Eu tinha esperança, mas depois de tanto tempo de espera eu me sentia cansado. Um dia, cheguei a pensar que se o rim aparecesse eu faria a cirurgia, mas se demorasse muito, eu torcia mesmo para viver só até os 50 anos e acabar logo com aquele sofrimento”, conta o vendedor Gilson Pereira da Silva.

Natural de Fátima do Sul, Gilson era comerciante no interior e diz que levava uma vida tranquila. Quando surgiram os primeiros sintomas, como dores e cansaço, ele foi ao médico e recebeu o diagnóstico. “Aquilo transformou a minha vida. Ao mesmo tempo em que eu tinha que continuar trabalhando precisava ser forte para seguir o tratamento. Mas não era nada fácil. A hemodiálise nem sempre é fácil”.

Gilson seguiu com o tratamento e a luta por um transplante. Além das angustias com a hemodiálise, o tempo de espera também foi massacrante. “Infelizmente eu não tinha ninguém próximo compatível ou que aceitasse a doação em vida. Dependia de alguém que autorizasse a doação em meio a dor de perder um ente querido”.

Hoje, ele conta sua história e defende a doação de órgãos. (Foto: Marina Pacheco)
Hoje, ele conta sua história e defende a doação de órgãos. (Foto: Marina Pacheco)

Foram 15 anos de espera. Altos e baixos. Esperança e depressão. Gilson diz que não sabia mais o que pensar, exceto viver bem menos do que se espera. “Chega um momento que a gente não quer mais sofrer, não quer se imaginar velho e cheio de dificuldades”.

Numa manhã de terça-feira, por volta das 7 horas da manhã, o telefone de Gilson toca e ele desaba em lágrimas, porém, de felicidade. “Era uma pessoa do hospital dizendo que um rapaz havia falecido e a esposa dele decidiu doar todos os órgãos. Eu não sei quem foi, mas naquele momento eu agradeci e desejei que essa família recebesse todo amor do mundo”.

Gilson se arrumou e foi até o hospital. A cirurgia ocorreu dentro do planejado. A recuperação foi mais fácil do que ele imaginava. Mas a alegria superou todas as expectativas. “Eu pensava que agora precisava viver. Pedi a Deus para que me deixasse continuar vivendo e honrasse o rim que uma família, que chorava por perder alguém querido, tinha acabado de me doar”.

O vendedor diz que não só voltou a viver, como já coleciona histórias pelos lugares onde passa. “Há alguns anos trabalhava como representante comercial e vendedor de joias. Então passei a trabalhar mais e dedicar meu tempo a viajar. Já conheci bons lugares desse nosso Brasil”.

Hoje, aos 50 anos, o sorriso é outro e a vontade de viver é imensa, diz ele. “Não há outra coisa no mundo que eu queira que não seja viver intensamente”.

Sobre a decisão de famílias sobre a doação de órgãos ele manda um recado. “Muitas vezes é difícil a gente pensar sobre isso num momento de dor. Mas todos nós podemos salvar uma vida. E isso deve ser conversado com a família sempre que necessário. Para que na hora da partida, todos saibam qual decisão tomar. Sem dúvidas, a doação de órgãos é um dos gestos mais lindos do ser humano”.

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