Casos de choque anafilático chamaram atenção e acenderam alerta em Mato Grosso do Sul. A reação alérgica grave levou uma idosa à UTI (Unidade de Terapia Intensiva) neste fim de semana, após ela testar um batom de R$ 1 no Centro de Campo Grande. Além disso, a ex-deputada estadual Grazielle Machado morreu por choque anafilático no fim de junho.
O choque anafilático é uma reação alérgica grave, de rápida evolução, que pode levar à morte. Embora seja incomum após o uso de cosméticos, pode ocorrer quando a pessoa possui sensibilidade a algum dos componentes da fórmula.
“Os principais responsáveis costumam ser fragrâncias, conservantes, corantes ou outros componentes específicos nos produtos. Vale lembrar que a maioria das reações a cosméticos é localizada, causando apenas vermelhidão, coceira ou inchaço na pele. O choque anafilático é uma manifestação muito mais incomum”, explica Yuri Chiarelli Perdomo, médico membro titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia.
Isso não significa que outras pessoas terão a mesma reação ao entrar em contato com o produto ou a substância. A resposta depende das características do sistema imunológico de cada indivíduo. “A reação alérgica é individual. Não podemos afirmar que todas as pessoas que tenham contato eventualmente com a mesma substância terão reação. Muito pelo contrário”, afirma o dermatologista.
O médico Yuri Chiarelli Perdomo afirma, ainda, que uma reação alérgica depende de um contato anterior do organismo com a substância. Essa exposição inicial faz com que o sistema imunológico passe a reconhecê-la e pode abrir caminho para uma reação futura.
“É importante entender que uma alergia não costuma surgir no primeiro contato com uma substância. O primeiro contato ‘ensina’ o sistema imunológico a reconhecer aquela substância. É como se ele criasse uma memória. Quando ocorre uma nova exposição, o organismo pode reagir de forma exagerada, mesmo se for em quantidades mínimas da substância em questão”, explica.
É por isso que uma quantidade aparentemente pequena de determinado componente pode desencadear uma reação grave em quem já está sensibilizado. Conforme o médico, a intensidade da alergia está relacionada à resposta do organismo, e não necessariamente à quantidade do produto. “Uma analogia simples é pensar em um alarme de incêndio muito sensível: às vezes, uma pequena fumaça já é suficiente para dispará-lo”.
Os primeiros sinais de uma reação grave podem aparecer poucos minutos depois do contato com o alérgeno. Entre os sintomas, estão coceira intensa, vermelhidão pelo corpo e inchaço nos lábios, nas pálpebras e nas mucosas. No caso da idosa, que passou mal após testar um batom, os sintomas vieram imediatamente.
A pessoa também pode sentir aperto na garganta, dificuldade para engolir, falta de ar, chiado no peito, tontura ou chegar a desmaiar. Segundo o dermatologista, alguns sintomas indicam necessidade de atendimento urgente.
“Quando há sintomas respiratórios, sensação de desmaio ou inchaço importante dos lábios, olhos e mucosas, trata-se de uma emergência médica. A pessoa deve procurar atendimento imediatamente ou acionar o serviço de emergência. O tratamento precoce faz toda a diferença”, alerta.
Nenhum cosmético oferece garantia de risco zero, já que cada organismo pode reagir de maneira diferente. Entretanto, alguns cuidados reduzem a possibilidade de problemas, como escolher produtos regularizados pelos órgãos competentes e não utilizar itens vencidos ou que apresentem alterações de cheiro, cor ou textura.
Pessoas com histórico de alergia devem priorizar fórmulas mais simples e com menos fragrâncias e conservantes. Antes de usar um produto novo, também é possível aplicar uma pequena quantidade em uma área discreta da pele e observar o local por um período de 24 a 48 horas.
O médico ressalta, porém, que esse teste identifica principalmente reações na pele e não consegue afastar completamente a possibilidade de uma manifestação sistêmica. Também deve ser evitado o contato direto do produto com mucosas, onde a absorção pode ocorrer mais rapidamente.
Na dúvida, a recomendação principal sempre é procurar um médico. “É fundamental que pacientes com histórico de múltiplas alergias procurem um alergologista para avaliar e realizar testes para ajudar a identificar as substâncias às quais possuem sensibilidade e evitar o contato a todo custo”, orienta.
Uma idosa de 60 anos ficou internada na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) de um hospital, neste fim de semana, após usar um batom vendido por R$ 1 no Centro de Campo Grande. O caso ocorreu na tarde do último sábado (18), quando a idosa fazia um passeio com sua irmã pela Capital.
Ela relata que pegou um ‘batom mágico’ — de cor verde, mas que muda a tonalidade para rosa quando aplicado sobre a pele — e testou em sua mão. No entanto, como não era o que queria, devolveu o produto à prateleira. Em seguida, ela levou a mão ao rosto para arrumar o cabelo, quando teria resvalado em seu olho.
A partir desse momento, ela começou a ter reações ao produto. Seu olho começou a inchar, o que foi percebido por sua irmã. Depois de saírem da loja e andarem alguns metros, a idosa começou a passar mal, com alteração na pressão e na diabetes, além de falta de ar.
Ela foi levada por sua filha a um hospital, onde recebeu diversas injeções e medicamentos. A idosa permaneceu internada na UTI durante o fim de semana, sendo liberada apenas na manhã desta segunda-feira (20).
Laudo médico teria atestado que a morte da ex-deputada Grazielle Machado foi causada por choque anafilático, conforme nota oficial divulgada na manhã de 29 de junho pelo gabinete do deputado Londres Machado, pai da ex-parlamentar.
“Foi divulgado nesta segunda-feira (29) o laudo médico que aponta a causa da morte da ex-vereadora e ex-deputada Grazielle Machado. Conforme o documento, o óbito foi provocado por choque anafilático”, diz a nota, sem detalhar qual substância provocou a reação.
Inicialmente, havia suspeita de que Grazielle teria sido infectada por Salmonella após ingerir camarão. No entanto, a nota oficial não confirma o que causou o choque anafilático.