26/08/2015 às 14h40min - Atualizada em 26/08/2015 às 14h40min

Qual a sua rede primordial ?

Luciano Gazola - colunista do fatimaemdia.com.br

A primeira rede social com a qual me identifiquei nasceu décadas antes do facebook, chama-se Valdomiro Cortez, rua Valdomiro Cortez, bairro Modelo, Ijuí RS. Éramos mais de trinta membros, todos com a mesma faixa etária de idade, 8 a 12 anos, meninos de um lado, meninas do outro e as vezes misturava tudo. Nossos perfis eram reais, ninguém precisava mentir pra ninguém, não importava muito a cor, o ano, o modelo do carro ou da bicicleta que nossos pais tinham. As cutucadas eram reais e não virtuais.

Os jogos não eram on line, eram na rua mesmo, com direito a unha do dedão arrancada porque chutamos o "cordão" que no resto do Brasil é meio fio. Se tinha casa em construção a diversão era garantida assim que os pedreiros fossem embora. Foi nessa rede que descobri o poder feminino sobre o fracasso masculino, o primeiro amor, o primeiro beijo e o primeiro pé na bunda, depois viriam outros, mais fortes, melhores e piores... Quando meus país venderam a casa tive aquela sensação de fim de vida social, fim de tudo, fim do mundo. Mas o mundo continuava e a vida seguia.

Em Santo Angelo no ensino médio a rede aumentou e também ficou mais séria, mais cautelosa e mais ousada. Quando a gente ia em uma reunião dançante, ninguém usava aplicativo pra saber quem era solteiro, quem estava disponível ou afim. O negócio era no papo mesmo, quem não sabia papear se lascava, com um bom papo se podia dançar e até ir além a noite inteira, mas já existiam os bloqueios e mesmo com um bom papo você podia ser bloqueado, dai era partir pra outra. Nos restaurantes saboreávamos a comida sem bater foto, ah, e nossa alma registrava coisas que o cartão de memória virtual de hoje é incapaz de registrar. Era tudo bem mais pessoal e bem mais real também.

A vida faz com que as redes sociais fiquem mais sérias. Podia falar de um monte delas aqui, a do trabalho marcada pela competitividade, a das faculdades marcada pela esperança, a da fé marcada pelo bem e o mal. Tive aniversários onde ganhei mais de 50 gravatas, tive também aqueles com mais de uma dúzia de litros de uísque. Tive abraços que pareciam pra sempre, e nas redes virtuais milhares de amigos, centenas de curtidas, fotos, palavras... A vida é uma rede real. Precisamos aprender isso. Apreender que a paz não está nos grandes ajuntamentos, a sabedoria não está nas centenas de curtidas, as amizades não se resumem a 50 gravatas em um aniversario. A vida é bem mais real do que tudo isso. Muitos dos meus melhores momentos se deram em duas cadeiras de fio, às vezes três, uma cuia de terere ou chimarrão, e um papo livre sem tentar impressionar ou se justificar, sendo quem se é.

Quando todas as redes sociais não foram o suficiente, a rede do sobrenome, da família, do amor preencheu o rombo da alma! Só há paz quando há verdade e a verdade nunca se agrupa em multidões. A verdade, a solidão e a sinceridade quase sempre andam juntas e quando juntas encontram a Paz. Percebo hoje um grande desperdício de energia nas pessoas que ainda procuram a paz da multidão, seja ela virtual, política, eclesiástica ou profissional, a paz nos foi dada, é muito pessoal, não é isolada mas também não é das multidões. Seus grupos de WhatsApp se terminam quando termina o interesse, o vínculo.

Qual o vínculo de sua rede social?

Ainda tenho redes sociais e grupos de WhatsApp, mas os resumo da seguinte maneira: os grupos onde não posso desnudar minha alma, não considero significativos, tem lá sua função mas não são primordiais, porém onde posso ser quem sou, ali está minha paz, ali é primordial. Boa semana gente boa! Luciano Gazola, teólogo, comerciante e colunista do fatimaemdia

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